segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Conhecimento para crescimento e vida abundante



O ser humano tem mania de ver tudo a partir de opostos: branco x preto; verdade x mentira e também espiritual x material, secular x sagrado. Nesse contexto, muitas vezes surge uma oposição entre o intelecto, a razão humana e o espiritual. A gente encontra uma série de pessoas, em nosso segmento cristão, que veem com dificuldade o processo de conciliar estudos e espiritualidade. Mesmo quem entra num seminário pode desenvolver a ideia de que está ali apenas para cumprir uma etapa, um “mal necessário” para chegar a ter um título e desenvolver um ministério.
Porém, a teologia e seu estudo estão na base de tudo o que fazemos. Quando expomos o Evangelho, o fazemos a partir de pressupostos de pessoas que interferiram em nosso entendimento, conhecendo a gente ou não, gostando ou não. Por exemplo, a palavra Trindade, que tanto usamos em nossas explorações doutrinárias, não é bíblica. De onde ela vem? Quem a pronunciou? Quem deu a ela o sentido que usamos de forma tão sólida? Tertualiano, um dos pais da Igreja, que viveu entre 150 e 220 d.C., aproximadamente. E quando falamos em Reino do Céu, cidadão do céu e termos parecidos? Podemos estar nos referindo ao pensamento de outro teólogo cristão africano, Agostinho de Hipona!
Fazemos teologia a todo o tempo. Nosso jeito de orar, de cantar, de pregar, de ler a Bíblia, em suas especificidades em cada igreja cristã no mundo são nosso modo de fazer o que no campo dos estudos se chama de Teologia Prática. Desta forma, é bom que a gente traga à mente alguns conceitos de teologia que podem enriquecer esse debate, superando as dicotomias entre estudo e espiritualidade, para demonstrar que maneiras o estudo da teologia é fundamental para o crescimento na fé e para a vida abundante de nós mesmos, enquanto pastores, pastoras e líderes, e para a membresia de nossas igrejas.
O que é a teologia?

Teologia é um jeito de falar sobre o corpo.
O corpo dos sacrificados.
São os corpos que pronunciam o nome sagrado:
Deus...
A teologia é um poema do corpo,
o corpo orando,
o corpo dizendo as suas esperanças,
falando sobre o seu medo de morrer,
sua ânsia de imortalidade,
apontando para utopias,
espadas transformadas em arados,
lanças fundidas em podadeiras...
Por meio desta fala
os corpos se dão as mãos,
se fundem num abraço de amor,
e se sustentam para resistir e para caminhar.
(Rubem Alves)

Gosto muito dessa definição do Rubem Alves, porque ela coloca a teologia no seu lugar fundante. Ela nunca poderia almejar ser uma definição de Deus, nem explicar Deus. Quando fazemos isso, estamos longe de poder teologar. Deus, em Si mesmo, é indizível. É mistério. Tudo o que podemos fazer é buscar compreender de que formas podemos nos relacionar com aquilo que Ele nos revela, nos faz entender. A teologia é um esforço humano de se aproximar do divino. É algo tão válido que Deus vai se deixando revelar, compreender, conforme esse esforço. Vou me concentrar aqui, portanto, em falar de teologia sempre numa perspectiva cristã. Deus se revela, nós buscamos compreendê-lo.
Rubem Alves neste texto nos mostra que a teologia é concreta: acontece no nosso corpo, responde às questões deste corpo, é engajada. Um conhecimento teológico que fique no campo do achismo não é conhecimento. Queremos teologar para saber por que nascemos, para que existimos, por que a doença dói e por que a morte mata. São coisas tangíveis, reais, dolorosas ou angustiantes que nos movem na busca de conhecer, de responder à indagação: “A vida é isso aqui ou tem mais? Há um propósito para mim neste mundo?”
Nosso propósito é conhecer para crescer enquanto ser humano, para nos aproximar daquele alvo que é estar mais perto de Deus. A meu ver, é um retorno a Gênesis 2-3, aquela imagem Dele em nós antes da queda – o ser humano mais humano é o melhor espelho de Deus que podemos ter. Deus Se revelou naqueles primeiros seres, no Seu jardim especial. Por isso, um conhecimento que não se preocupa se as pessoas têm o que comer, o que vestir, como estudar, se estão em condições de cuidado e justiça, se não lhes é dada a condição ideal para um encontro com Deus em plenitude de vida, então esse teologar é falso e entra no campo das fábulas descritas por Paulo a Timóteo. Devemos seguir o conselho do apóstolo e fugir delas, pois são profanas e não agregam.
O que é conhecimento?
Em Oseias 4, diz: "Meu povo perece por falta de conhecimento". A partir deste texto, acusamos as pessoas de serem alienadas religiosa, política e afetivamente. Dizemos que é culpa delas por serem tão ignorantes. Gritamos que o povo não sabe votar, nem escolher, nem tomar decisões. Mas observemos no contexto:
Ouvi a palavra do Senhor, filhos de Israel! Porque o Senhor está em litígio com os habitantes da terra. Não há sinceridade nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio. Por isso, a terra está de luto e todos os seus habitantes perecem; os animais selvagens, as aves do céu, e até mesmo os peixes do mar desaparecem. Entretanto, ninguém poderá acusar {o povo}, nem o repreender, mas eu censuro a ti, ó sacerdote.
Na referência bíblica, a pessoa responsável pela transmissão do conhecimento ao povo, em prover-lhe condições para desenvolver seu discernimento e seguir a Deus é a figura sacerdotal. O papel do teólogo e da teóloga, portanto, é gerar um conhecimento que alcance a todas as pessoas, ao povo, dando-lhe apontamentos seguros para que possa caminhar rumo à salvação, ou seja, impedindo que “ele pereça por falta de conhecimento”. Agostinho afirma: “Sequer poderíamos crer se não tivéssemos mentes racionais”. Que conhecimento seria esse?
Primeiramente, é um conhecimento que requer investimento de nossa parte. Ele não é raso, não é simples e não pode ser achado em pesquisas rápidas no Google. Ele é, ao contrário, exigente. O fundador da Igreja Metodista, João Wesley, assim se expressou, em 17 de agosto de 1760, a um pregador chamado John Trembath, por meio de uma carta na qual o exortava a preparar-se adequadamente para o ofício da pregação:
O que tem lhe prejudicado excessivamente nos últimos tempos e, temo que seja o mesmo atualmente, é a carência de leitura. Eu raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez por negligenciar a leitura, você tenha perdido o gosto por ela. Por esta razão, o seu talento na pregação não se desenvolve. Você é apenas o mesmo de há sete anos. É vigoroso, mas não é profundo; há pouca variedade; não há sequência de argumentos. Só a leitura pode suprir esta deficiência, juntamente com a meditação e a oração diária. Você engana a si mesmo, omitindo isso. Você nunca poderá ser um pregador fecundo nem mesmo um crente completo. Vamos, comece! Estabeleça um horário para exercícios pessoais. Poderá adquirir o gosto que não tem; o que no início é tedioso será agradável, posteriormente. Quer goste ou não, leia e ore diariamente. É para sua vida; não há outro caminho; caso contrário, você será, sempre, um frívolo, medíocre e superficial pregador.
Na Bíblia, vemos Paulo, prestes a ser martirizado nos porões de Roma, pedindo a Timóteo que lhe traga uma capa e seus livros... O tratado de Paulo aos Romanos é um dos mais belos exemplos bíblicos de aula de teologia. É uma explicação só possível a alguém que gastou muito tempo meditando, pesquisando, conhecendo. Nenhuma pessoa pode ser hábil em sua profissão senão tendo estudado para isso. Mesmo o sapateiro no seu ofício estuda: seu objeto é o couro, o plástico, a linha... Ele conhece cada um desses elementos, sabe como se encontram, qual serve para qual... E o pregador ou pregadora não pode ser diferente. Precisa “manejar bem a Palavra” e não pode pressupor que saiba tudo ou que o Espírito lhe revelará tudo. Ele ou ela precisa e depende de outros que antes se debruçaram, pesquisaram, conheceram e podem lhe fornecer informações importantes sobre seu percurso com a Bíblia.
Em segundo lugar, é um conhecimento vital: debates são sempre muito bons pra desenvolver o nosso intelecto, mas eles precisam ter um propósito. Eu não sei muita coisa se isso só serve para polemizar. O conhecimento teológico serve para ajudar as pessoas a encontrar soluções para suas vidas espirituais, para sanar suas dúvidas existenciais, para ajudá-las a encontrar o propósito de sua vida em Deus. Um exemplo claro disso é o encontro de Filipe com o eunuco, na narrativa de Atos. É o conhecimento que Filipe tem das escrituras que torna possível ele “começar por Isaías para anunciar-lhe a Cristo”.
Filipe sabia contextualizar o texto, sabia o que Isaías estava falando e sabia como percorrer a trajetória histórica do texto para chegar onde queria. Muita gente sem conhecimento comete as mais bárbaras heresias porque lê a Bíblia como se ela tivesse sido escrita ontem, sem levar em conta a quantidade de gente que nos precede e o espaço histórico no tempo no qual as interpretações diversas se estabelecem. O conhecimento teológico precisa gerar vida. Alberto Fernando Roldán, no texto Para que serve a teologia (Editora Descoberta), afirma que
o pastor [a pastora] que não se preocupa com seu preparo bíblico e teológico condena sua igreja ao infantilismo e raquitismo espirituais e, com frequência, acaba tornando-se um pastor [uma pastora] monotemático que, como tal, desenvolve todos os seus discursos ao redor do seu tema favorito. Um pastor [uma pastora] monotemático está longe de apresentar ‘todo o conselho de Deus’ à sua congregação.
É cruel com as pessoas que elas passem anos e anos dentro das igrejas sem que possam se mover ao mínimo de autonomia nas suas reflexões ou se envolvam em debates insossos que alimentam somente as diferenças entre as doutrinas e não o crescimento saudável do membro em sua comunidade. A teologia pastoral serve a este propósito, pois, de acordo com Efésios, é para “equipar os santos para o desempenho do seu ministério”. O pastor ou pastora é essa pessoa que prepara as demais para atuar nos campos. Como fazer isso sem entender o porquê de fazer o que faz? É para isso que serve o conhecimento! Ele não é independente – respondemos às doutrinas cristãs estabelecidas desde os primeiros concílios da Igreja e estamos em sujeição às demandas de nossa igreja denominacional, pois o conhecimento teológico é, em essência, comunitário – mas é autônomo – consegue fazer sozinho aquilo que deve ser feito, sem muletas de qualquer tipo, como crendices, superstições, maldições ou coisas similares que fomentam o medo de questionar, indagar e aprender.
Em terceiro lugar, o conhecimento também serve para dar fidelidade ao ensino. Charles Spurgeon afirma:
Sejam bem instruídos em teologia, não façam caso do desprezo dos que zombam dela porque a ignoram. Muitos pregadores não são bons teólogos, e disso procedem os erros que cometem. Em nada pode prejudicar o mais dinâmico evangelista o ser também um bom teólogo; pelo contrário, pode ser o meio que o livre de cometer enormes disparates. Hoje em dia ouvimos alguém extrair do seu contexto uma frase isolada da Bíblia e clamar: “Eureka!” como se tivesse descoberto uma nova verdade; no entanto, não achou um diamante, mas um pedaço de vidro quebrado. Se comparasse o espiritual com o espiritual, se entendesse o significado da fé, ou estivesse familiarizado com a santa erudição dos grandes estudiosos da Bíblia em épocas anteriores, não se apressaria tanto em jactar-se de seus maravilhosos conhecimentos. (SPURGEON, 1991, p. 15)
Jesus era reconhecido como alguém que falava como quem tem autoridade. Que isso quer dizer? Havia segurança em suas palavras, firmeza nos seus conceitos. Ele era habilitado para ensinar e reconhecido como um rabino ou mestre, como o atesta o próprio Nicodemos na entrevista que tiveram. Jesus cita toda a Bíblia quando conversa com os discípulos no caminho de Emaús. Jesus chega na sinagoga e no rolo que lhe é dado Ele tem toda a condição de fazer sua preleção, porque é um estudioso. É evidente seu conhecimento, certamente recebido por toda a tradição judaica de ensino no contexto do lar e da sinagoga. Some-se a isso sua vida de devoção e oração e a autoridade se torna algo tangível e inegável até mesmo por seus inimigos!
Por fim, quero pontuar aqui, mas não somente isso, que o conhecimento produz, em decorrência dos aspectos acima, autoridade. Uma das funções da teologia é a apologética, a defesa da fé, não apenas em termos de debates, mas também por meio da formação das pessoas, da transmissão da correta doutrina, do forjar do ensino no dia a dia do povo, na formação de novos líderes, na transmissão de conteúdos e valores. Como fazer isso sem constante estudo e atualização? O professor e pastor Anders Ruuth ensina:
Não é o estudo em si o que transforma um pregador em um bom pregador, do mesmo modo como a honra de ser doutor em teologia não garante em absoluto a condição de profeta. Mas o estudo confere ao pregador os conhecimentos formais necessários para exercer seu ofício de pregador, assim como o artesão e o profissional têm de aprender as técnicas e práticas próprias de suas profissões. Todo mundo tem respeito por uma pessoa que é capaz em seu ofício. Assim também o ministro deve fazer-se respeitar pelos conhecimentos que possui. (RUUTH apud ROLDAN, p...)
A competência formal é importante. É claro, por exemplo, que Pedro é um grande líder na igreja primitiva. Sua autoridade é inegável. Mas a habilidade de discutir, de escrever e de pregar de Paulo, que foram aprimoradas porque ele estudou com os melhores professores de seu tempo, como Gamaliel, levaram ao máximo sua capacidade e por isso ele foi capaz de fazer transposições que Pedro não conseguiu, como se tornar o apóstolo entre os gentios, transitar entre culturas e saber “traduzir” o evangelho para povos não acostumados aos ritos, tradições e ao texto sagrado judeu.
Assim, o pregador ou pregadora, seja no pastorado, no ministério de evangelismo ou missões, tanto mais poderá avançar quanto conhecer todas as questões possíveis do campo da teologia. Do mesmo modo, ninguém conseguia colocar Jesus em apuros sobre a interpretação bíblica, porque Ele havia desenvolvido sua capacidade de raciocínio, articulando os conhecimentos bíblicos às demandas de seu tempo. Exemplos disso podem ser o episódio sobre o tributo, o caso da mulher adúltera ou quando lhe perguntam sobre sua autoridade e Ele devolve indagando se o batismo de João é do céu ou da terra. Sua forma de atuar é sempre levar as pessoas a racionar, ao invés de oferecer saídas fáceis e formatadas. Só assim se pode chegar ao segundo estágio de nossa conversa aqui: o crescimento!
Crescer: como?
O pensador católico Libânio faz um diagnóstico muito duro da realidade do cristianismo no contexto desse momento a que chamamos de pós-modernidade (seja lá o que isso signifique, dadas as tantas nuanças...). Ele afirma, primeiro, o que eu entendo que nós, protestantes, também podemos concordar quanto ao que seria um processo de maturidade (ou de crescimento na fé). E, a seguir, ele apresenta o problema que percebe na contemporaneidade para podermos ter tal crescimento:
A fé cristã pede uma identidade firme que passa por um tríplice processo. O cristão sente-se tocado pela Palavra de Deus, pela pessoa de Jesus, por sua práxis, pelos seus ensinamentos. Num momento seguinte, converte-se para uma nova vida, ao impregnar sua identidade religiosa de tal Palavra. E, num momento seguinte, compromete-se com o Reino de Deus. Isso significa que o agir se conforma com a lei do amor a Deus e ao irmão. E tal identidade se alimenta na comunidade daqueles que vivem tal experiência de conversão e seguimento. A identidade religiosa pós-moderna, pelo contrário, alimenta-se da emoção, de momentos intensos e passageiros, de uma busca de porta em porta de experiências sempre novas nas boutiques espirituais. As pessoas se entregam a verdadeiro nomadismo religioso. Reina o provisório. Desde que uma prática religiosa já não satisfaz, ela é descartada com toda facilidade. Não se receia misturar formas religiosas de tradições as mais diversas e até irreconciliáveis num ecletismo e sincretismo sem questionamentos. Vive-se no interior de uma nebulosa religiosa. Institui-se o primado da experiência sobre as prescrições da Instituição. Interiorizam-se e subjetivizam-se as expressões religiosas escolhidas conforme o próprio gosto. Há um dobrar-se sobre si mesmo, sobre o próprio eu. O termo mística soa redondo. Envolve vivências leves, gostosas, suaves. (LIBÂNIO, 2009, p.10-11)
A teologia se concentra nessa primeira parte para promover o crescimento. Levar a pessoa de um momento de ser tocada pela Palavra de Deus para chegar ao ápice, que é o comprometimento da vida com o Reino de Deus. Isso acontece no seio da comunidade de fé, que é uma comunidade interpretativa. Quer dizer que também a leitura bíblica e sua correta interpretação não são fruto de uma pessoa ou de seu modo particular de pensar. Quando a Reforma Protestante fala de colocar a Bíblia na mão das pessoas, dar-lhes acesso e incentiva ao sacerdócio universal de todos os crentes, ela não pretendia uma leitura individualista da Bíblia. Contudo, o que temos na atualidade é isso, a tal ponto que a experiência pessoal e particular inibe ou até contraria a vivência comunitária.
Essa fragmentação tem levado muita gente a desconsiderar a recomendação bíblica de não deixar de congregar-se, contida em Hebreus. E isso não é apenas deixar de ir à igreja, mas deixar de ser e sentir-se parte de algo maior. Sem o lastro dessa reflexão comunitária, há uma perda teológica não apenas de valores, mas de tradições e historicidade que vão se perdendo, levando à individuação e ao relativismo teológico, perigo tão aventado em nossos dias. Também se verifica, mediante a perda dos seus membros, que as igrejas-comunidades começam a adotar regras e práticas de mercado para segurar seus clientes, perdendo sua prerrogativa de espaço profético e tornando-se lugares de negociação religiosa. A Bíblia perde sua eficácia porque não há teologia que a sustente na vida das pessoas. Voltamos ao tempo dos juízes, quando “cada um faz o que acha correto”. A esse processo, temos chamado “secularização”.
É o conhecimento e o estudo das Escrituras, sua recondução ao lugar de texto sagrado na vida das pessoas, que vai garantir um crescimento real para a pessoa que ministra, tirando-a do lugar comum, mas do mesmo modo para sua igreja, levando a uma firmeza doutrinária e bíblica, a um fortalecimento do ser interior e um despertamento para a real vivência missionária, para as lutas do Reino de Deus que vão além da igreja, como a superação da violência, da criminalidade, das injustiças, a retidão nos governos, etc. O projeto de Deus não é só para a igreja ou para um conjunto específico de pessoas. É para o mundo todo. Não é um novo bairro ou um novo país, mas um novo céu e uma nova terra!
A educação teológica, para gerar crescimento e vida abundante, deve ser libertadora no sentido de elevar as pessoas à condição de protagonistas de sua história. A leitura bíblica precisa impulsionar à ação. Superar a secularização pelo resgate da Bíblia como inspiração concreta e da comunidade como fomentadora de vida. Levar as pessoas a se engajar em projetos que não apenas gere adeptos para seus arraiais, mas gente comprometida com todos os aspectos possíveis para transformar o mundo.
Vivemos um novo nível de massificação, como nunca imaginado. A Teologia tem se tornado produto e tem gerado mercados. Prova disso é o grande número de cursos que se oferece. Se por um lado podemos agradecer pela ampla oferta de conhecimento, por outro, nos deparamos com o consumo e com o pragmatismo que caracterizam, em muitos momentos, a educação teológica que temos recebido. A educação teológica deve, ser, portanto, comprometida, assumindo posturas e negando qualquer falsa neutralidade em nome de um bem-estar aparente, do que seria politicamente correto. Para haver conhecimento, crescimento e vida abundante, é preciso profundidade, compromisso, tempo.
Eu creio que a sensação mais próxima do que eu quero expressar na totalidade dessa reflexão é que o pastor ou pastora, ou a pessoa que quer estudar teologia, deveria fazê-lo, para ter conhecimento, crescimento e vida abundante, a mesma disposição que havia nos pregadores antigos para com seu tempo com Deus em estudo e aprofundamento. Dentre tantos, me permitam citar João Wesley, em sua introdução aos sermões, que tem um dos textos mais lindos sobre como a teologia nasce do contato com as pessoas, com a Bíblia, com a experiência pessoal e com a tradição, que são os pensadores que vieram antes de nós:
Eu não tenho receio de revelar os meus pensamentos mais íntimos aos homens sinceros e sensatos. Eu tenho pensado que sou uma criatura de um dia, passando pela vida como uma flecha através do ar. Sou um espírito vindo de Deus e que para ele voltará; espírito apenas pairando sobre o grande abismo, até que daqui a uns poucos momentos eu não seja mais visto e entre numa eternidade imutável! Quero saber uma coisa – o caminho para o céu; como desembarcar-me com segurança naquela praia feliz. O próprio Deus condescendeu em ensinar o caminho; para este fim, ele veio do céu. Ele o escreveu em um livro. Oh, dá-me esse livro! Por qualquer preço, dá-me o livro de Deus! Eu o tenho. Aqui há conhecimento suficiente para mim. Seja eu o homem de um livro. De modo que estou distante dos costumes atarefados dos homens. Eu me assento a sós: somente Deus está aqui. Em sua presença abro e leio o seu livro; para este fim: achar o caminho do céu. Há alguma dúvida a respeito do significado daquilo que leio? Parece alguma coisa difícil ou intricada? Ergo o meu coração ao Pai das luzes: "Senhor, não é tua palavra, se alguém necessita de sabedoria peça a Deus? Tu dás liberalmente e não lanças em rosto. Tu disseste: se alguém quiser fazer a tua vontade, ele a conhecerá. Eu quero fazê-la, dá que eu conheça a tua vontade." Eu então pesquiso e considero as passagens paralelas das Escrituras, "comparando as coisas espirituais com as espirituais." E então medito com toda a atenção e sinceridade de que é capaz a minha mente. Se ainda persiste alguma dúvida, consulto aqueles que são experimentados nas coisas de Deus e, então, os escritos pelos quais, mesmo mortos, ainda falam. E o que assim aprendo, isso ensino.  (WESLEY, Prefácio aos Sermões).
Obrigada!


Referências
LIBÂNIO, João Batista. Identidade na Pós-modernidade. In: Revista Interlocução, v.1, n.1, Ago./Set./Out. 2009. Disponível em http://interlocucao.loyola.g12.br/index.php/revista/ article/view/27/29
ROLDÁN, Alberto F. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000
SPURGEON, Charles H. Um ministério ideal. Vol. I. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991
WESLEY, John. Carta a John Trembath. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/pregacao/pregadores_wesley.htm, acesso em 01 set 2016.

WESLEY, John. Sermões. Disponível em: http://www.metodista.org.br/sermoes-de-john-wesley-disponiveis-para-download. Acesso em 01 set 2016.

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